terça-feira, 29 de março de 2011

Comércio pelotense ainda não aderiu à internet

O e-commerce, o comércio pela internet, cresceu 40% entre 2009 e 2010, chegando a um faturamento de R$ 14,8 bilhões. Mas o comércio pelotense aparentemente prospera sem se render à tecnologia. Além da falta de informações sobre o assunto, muitas empresas da cidade possuem sites, mas poucas utilizam seus sites para fazer negócios.

Conforme o relato de Marcos Macedo, da Livraria Mundial, uma explicação pode ser o desinteresse do público local. A Mundial faz vendas pelo site desde 2009, mas "90% das vendas [pelo site] são realizadas para fora de Pelotas, em todo o Brasil. O público pelotense usa o site para dar sugestões, pedir informações e enviar currículos para trabalho". O setor de livros e revistas foi um dos maiores em volume de vendas pela internet em 2010.

Outra explicação pode ser o momento positivo pelo qual passa a economia do país. Enquanto o público principal do e-commerce, as classes A e B, passam a comprar mais pela internet, o público que chega à chamada nova classe média toma o seu lugar nas lojas físicas.

E entre os que aderiram ao e-commerce, fugir da loja física é a grande jogada. A bancária Maisa Neves afirma que faz compras pela internet regularmente, porque "é mais prático de procurar, tu podes entrar em vários sites para analisar os preços". Já o estudante de cinema Diego Moura elogia o preço e a variedade dos produtos. "O que mais compro são tênis, porque além dos preços serem bem melhores do que os praticados no comércio local, existe uma variedade muito maior".

A localização do site raramente é preocupação para os compradores. "Já comprei coisas de países que eu não sei pronunciar o nome", revela Diego. Mas se nem os consumidores e nem os vendedores estão dando bola, por outro lado o governo do estado está entrando na briga pelos impostos provenientes do comércio eletrônico.

O Rio Grande do Sul é um dos 18 signatários de um protocolo que visa unificar a cobrança da ICMS sobre vendas pela internet. Como os centros de distribuição das grandes lojas de eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos se encontram geralmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, estes estados ficam o imposto na maior parte das compras virtuais. Em fevereiro, a Bahia passou a cobrar ICMS nessas operações, o que deve ser seguido pelos outros estados.

Sites de compras coletivas estabelecem um novo modelo de comércio no país

Depois de consolidar a praticidade da compra online, a internet quebra mais um galho para o consumidor brasileiro. Desde o ano passado, cidades que concentram uma população de maior poder aquisitivo foram invadidas pelo sites de compras coletivas, Pelotas inclusa.

Os sites apostam na compra por impulso, oferecendo produtos e serviços com descontos que podem chegar a 90%. As ofertas só são concretizadas se alcançarem um número mínimo de compradores. Com isso, o anunciante ganha clientes que não teria em condições "normais", enquanto o comprador ganha uma economia pela qual ele não esperava.

O pioneiro nesse tipo de operação, o Peixe Urbano, existe desde março de 2010. Mas, em menos de um ano, uma pesquisa da e-bit em parceria com a Câmara Brasileira de Comércio eletrônico já apontava a existência de mais de 1200 sites do gênero. Peixe Urbano, Groupon e ClickOn, os três principais sites em atuação no país, respondem por aproximadamente 80% do mercado.

Em Pelotas, onde o comércio eletrônico ainda não é uma tendência muito forte, o Peixe Urbano estreou em fevereiro deste ano. Mas a chegada do novo modelo de compras já inspirou alguns sites, como o Pesquei Oferta que no momento atua apenas na cidade.

As ofertas mais comuns são de restaurantes e sessões de beleza, mas o ClickOn já oferece shows, incluindo um recente pacote para o show do U2 em Buenos Aires, com hotel, restaurante e mais.

Comércio eletrônico cresce 40% em um ano

O conforto das compras pela internet está vencendo a desconfiança do consumidor brasileiro. Segundo uma pesquisa da e-bit em parceria com a Câmara Brasileira de Comércio eletrônico, o comércio pela internet no Brasil teve um faturamento de R$ 14,8 bilhões em 2010, contra R$ 10,6 bilhões em 2009. Para 2011 a expectativa é de R$ 20 bilhões.

E enquanto se estabelece como alternativa ao comércio tradicional, o e-commerce vem apresentando mudanças no seu próprio perfil. O setor campeão de vendas, pela primeira vez, é o de eletrodomésticos, seguido por "livros, assinaturas de revistas e jornais", "saúde, beleza e medicamentos", informática e eletrônicos. CDs e DVDs, que em anos anteriores eram presença garantida entre os mais vendidos, não aparecem na pesquisa.

Outra pesquisa, feita pelo Ibope revela que, embora o momento positivo da economia esteja inserindo as classes C e D também no comércio eletrônico, os principais compradores ainda são das classes A e B, com maioria masculina e idade média de 33 anos. Para orientar os novos e-consumidores, a camara-e.net lançou no ano passado uma cartilha sobre segurança em compras pela internet.

Essa movimentação do comércio físico para o virtual está favorecendo os estados onde estão os centros de distribuição das grandes lojas, geralmente São Paulo e Rio de Janeiro. Por isso, na semana passada, outros 18 estados se uniram para estabelecer a cobrança do ICMS (Imposto sobre Circulação de Bens e Mercadorias) em vendas pela internet. Alguns estados, como a Bahia e o Ceará, já adotaram medidas semelhantes. O Rio Grande do Sul é um dos assinantes do protocolo, mas no comércio local a preocupação aparentemente é mínima.

A última febre proporcionada pelo e-commerce são os sites de compras coletivas, que oferecem produtos e serviços, geralmente locais, com descontos que podem chegar a 90%. Segundo o e-bit, já existem mais de 1200 sites de compras coletivas no país. O ClickOn, um dos três principais, já oferece até uma promoção para o show do U2 em Buenos Aires.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Retrocesso no Ministério da Cultura

Em um governo cheio de contrastes entre o que era esperado e o que foi feito, como foi o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a cultura foi uma área que se destacou pelo viés visivelmente progressista com que foi gerida. Como consequência, muitos foram os agentes culturais que se engajaram na campanha da escolhida de Lula para a sua sucessão, Dilma Roussef. Mas a dificuldade em entregar o que se espera parece ser uma constante no PT, mesmo quando o esperado é que tudo permaneça como está.

O cheiro de retrocesso já era sentido pelos mais próximos ao Ministério da Cultura quando o primeiro sinal se concretizou para o público: com menos de um mês no cargo, a Ministra Ana de Hollanda decidiu retirar do site do Minc o logotipo relativo à licença Creative Commons, um conjunto de normas destinadas a flexibilizar os direitos autorais, facilitando o acesso às obras licenciadas.



As Creative Commons haviam sido adotadas desde o início do primeiro governo Lula, quando o ministro era Gilberto Gil. O ex-ministro, que na carreira artística produziu diversas odes aos novos tempos da comunicação, demonstrou sintonia com o projeto petista (de então) para a cultura e acalmou as críticas iniciais à sua escolha. Antes de sair do ministério, em 2008, Gil lançou o Fórum Nacional de Direito Autoral e contribuiu com o debate sobre a reforma na lei de direitos autorais.



A reforma foi um dos pontos de maior dedicação do ministro seguinte, Juca Ferreira, cuja gestão promoveu uma consulta pública para arrecadar contribuições ao projeto. Algumas metas seriam adequar a legislação à realidade das mídias digitais e regularizar questões como o funcionamento do ECAD, Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, o órgão que cuida da cobrança e distribuição de dinheiro aos compositores pela execução de suas músicas pelo país. O ECAD, de péssima reputação entre os músicos não-midiáticos, tem ligações pouco publicadas com a nova ministra e é um dos privilegiados no novo ministério. A reforma foi interrompida.

O último sinal do compromisso de Ana de Hollanda com o século passado foi dado no fim de Fevereiro, com a demissão do Diretor de Direitos Intelectuais do Ministério da Cultura, Marcos Souza, um dos articuladores da reforma. A saída de Souza causou uma ameaça de demissão coletiva de 16 servidores do Minc, inconformados com o novo rumo do ministério. Em seu lugar entrou Marcia Regina Barbosa, indicada por Hildebrando Pontes Neto, advogado, adivinhem... do ECAD!

Mas ainda houve mais um indicativo de afastamento do legado lulista no começo de Março. Emir Sader, entusiástico militante lulista, havia sido convidado a presidir a Fundação Casa de Rui Barbosa, entidade de preservação e pesquisa da cultura nacional. Porém, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo publicada em 27 de Fevereiro, ao comentar a situação do Minc, problemas com o Pontos de Cultura e a ausência de respostas por parte da ministra, Sader afirmou que ela é "meio autista". Em 2 de Março Ana de Hollanda anunciou que ele não iria mais para a Casa. Embora o motivo mais aceito para a "queda" tenha sido a declaração irônica, alguns - como o próprio Sader - afirmam que o real motivo seriam os seus planos de mudar o foco da Casa, que teriam incomodado setores conservadores dentro e fora dela.

A presidenta, dependendo da fonte, apoiou ou foi a autora da decisão. Sader foi substituído por Wanderley Guilherme dos Santos, uma mudança meramente nominal. Mas a remoção de um grande defensor do ex-presidente Lula do governo Dilma, assim como as ações anteriores do novo Minc, foi comemorada, disfarçada ou escancaradamente, por representantes da "grande" mídia.

Do outro lado, concentrados na internet, apoiadores do Minc progressista se mostram entre perplexos e indignados com a nova gestão. Entre eles está o coordenador de internet da campanha de Dilma Roussef, Marcelo Branco. A chamada blogosfera "progressista", ou "petista", dependendo da fonte, lamenta ainda movimentos da presidenta em direção a uma trégua com órgãos da mídia tradicional, que não tiveram a mesma boa vontade com Lula.

Enquanto isso, a ministra Ana de Hollanda afirma que tem o apoio da presidenta em seus atos. Ou seja, ela pode continuar tranquila com o seu "autismo", para os mais ingênuos, ou defendendo os interesses que está lá pra defender, praticando o silêncio característico dos que têm poder suficiente pra não precisar responder.

De desistência em desistência, trocando os poucos avanços que restaram pela defesa dos privilegiados de sempre, vejamos se, ao fim do mandato de Dilma, vai sobrar algo a se esperar de um governo do PT.

terça-feira, 1 de março de 2011

Novidades e revoluções árabes



Nesse começo de década, o mundo árabe, geralmente excluído do noticiário ocidental, voltou às manchetes das mídias tradicionais por força do seu povo e com a ajuda das novas mídias. Durante anos os governos destes países passaram quase despercebidos, pois não ofereciam uma ameaça à "estabilidade" do cenário internacional. Mas a frustração acumulada por anos de autoritarismo e corrupção mudou a história.

As revoltas começaram em Dezembro do ano passado na Tunísia, onde Mohamed Bouazizi, um vendedor ambulante, ateou fogo ao próprio corpo para protestar contra abusos policiais cometidos contra ele. A morte do vendedor levou a protestos que se espalharam pelo país e, em menos de um mês, derrubaram o governo de 23 anos do presidente Zine El Abidine Ben Ali.

O primeiro-ministro Mohamed Ghannouchi, aliado de Ben Ali, assumiu o controle do país e tentou formar um governo de transição com membros do governo e da oposição, mas os protestos continuaram, demandando o desmonte total do governo e do partido do ex-presidente. Tanto Ghannouchi quanto diversos ministros indicados por ele já renunciaram e a situação continua indefinida.

Em seguida, o foco do noticiário se moveu para o Egito, onde Hosni Mubarak governava por 30 anos. Começando no dia 25 de Janeiro, foram realizadas sucessivas manifestações por reformas políticas. Muitas das demandas foram atendidas, mas confrontos com apoiadores do presidente aumentaram a violência e o descontentamento da população levou milhões para as ruas.


Multidão na Praça Tahir, Egito

Mubarak renunciou em 11 de Fevereiro e entregou o poder ao Conselho Supremo das Forças Armadas. O Conselho dissolveu o parlamento e anunciou a realização de eleições em Setembro, mas, como na Tunísia, os manifestantes continuam pedindo o fim imediato do governo, que ainda mantém pessoas ligadas a Mubarak.

Nos dois países, a Internet teve um papel sem precedentes na organização de movimentos políticos populares. Protestos foram organizados por grupos no Facebook, como o egípcio We Are All Khaled Said, criado em homenagem a um jovem que foi espancado e morto pela polícia em Junho de 2010. Em resposta, o governo egípcio, ainda com Mubarak, bloqueou Twitter e Facebook por vários dias no país inteiro.

Na Tunísia, algumas fontes afirmam que a maioria das manifestações foi organizada pelo Facebook. Vídeos da repressão policial foram publicados pelos manifestantes no Youtube e chamaram atenção do exterior, o que levou ao bloqueio de sites de vídeo. Após a queda de Ben Ali, o governo interino nomeou o blogueiro Slim Amamou como ministro da Juventude e do Esporte.



O principal foco atual de tensões é a Líbia, do ditador Muammar Kaddafi. Excêntrico e pretensamente nacionalista, Kaddafi é o único dos governantes citados que já foi visto como vilão pelo mundo ocidental, inclusive com participação em atentados terroristas. Nos últimos anos ele vinha se reconciliando com os poderes ocidentais, assinando tratados de cooperação e abrindo o país para empresas multinacionais.

A revolta começou em 15 de Fevereiro com um pequeno protesto na cidade de Benghazi. A reação do governo desde o princípio tem sido bastante violenta e a oposição tenta tomar o poder no país aos poucos. No último dia 27 foi anunciada a formação de um Conselho Nacional para administrar as diversas cidades que não estão mais sob controle de Kaddafi.

Diversos outros países da região passam por turbulências, como Bahrein - que já teve o GP de Fórmula 1 da próxima temporada cancelado -, Iêmen, Jordânia e Irã. Introduzindo o uso da Internet em revoluções democráticas e tendo, ao mesmo tempo, diversas tribos, grupos religiosos e herdeiros de regimes ditatoriais disputando o poder, o mundo árabe agora balança entre ser a vanguarda do mundo ou cair novamente no conservadorismo.